quinta-feira, 4 de maio de 2017

Fonte de Letras, em Évora


2 de Maio de 2017
Em Évora, uma Fonte de Letras, para matar a sede de ler.
Foi uma visita de ir e vir. De passagem pelo Nazareth, Nazareth & Filho do meu tempo de estudante, ainda com o velho Sr. Nazareth no final dos anos 50, ia a subir a escada para o andar de cima, sempre o andar nobre, direi mesmo o salão nobre da casa. Subíamos os degraus acompanhados por fotografias a preto e branco de escritores portugueses, ao alto e à esquerda. Oliveira Martins, Jaime Cortesão, outros grandes escritores... Fotografias de grande dignidade, não passavam de moda.
O balcão de atendimento era à esquerda, do lado da Praça do Geraldo, mas não ocupava todo esse lado. Os livros eram bem escolhidos e cobriam os vários campos da cultura. De romancistas, poetas portugueses viam-se os livros em prateleiras facilmente identificáveis. Torga, Régio, a história, a arte. Évora e o Alentejo estavam bem representados. Foi lá que comprei os três volumes de Estudos Eborenses, de Gabriel Pereira, edições Nazareth, era lá que estava a colecção dos cadernos de História e Arte Eborense. O boletim cultural A Cidade de Évora, publicado desde 1942 e dirigido durante muitos anos por Túlio Espanca. Do mesmo autor, os Cadernos de História e Arte Eborense: escreveu trinta e dois, desde 1944.
Pois, estando vedado o primeiro andar, visito a livraria, no espaço que continua o da entrada e já foi o seu nos anos 50. Em toda a loja nos seus dois espaços se é atendido por gente nova e dedicada, mas a diferença de qualidade impressiona quem conheceu o antes. O livro está ali como num centro comercial, com pouca espessura de tempo. Só há presente. Não há tempo, apetece dizer. Só a superfície dele...
Procurava uma obra com a Memória Descritiva do Assalto, Entrada e Saque da Cidade de Évora, que reproduz a NARRAÇÃO escrita pelo Arcebispo Cenáculo sobre os acontecimentos de 1808, as violências e humilhações de Loison e o seu próprio papel naquela dificílima situação. Refiro-me a um livro relativamente recente, em que a Memória é acompanhada por estudo de uma investigadora, cujo nome também não consigo recuperar. Não se encontra rasto da obra. A livraria está pobre de coisas do Alentejo. Onde está Celestino David, onde está Florbela, onde está algo mais, para quem queira aprofundar um pouco?!... 
Ficou lá, no entanto, um livro-álbum de fotografias sobre Évora, o Alentejo, belíssimo, com uma primeira parte a cores e outra a preto e branco. 15 €. Para quem gosta de fotografia, é quase desolador tanta qualidade, porque queremos seguir o exemplo... A adquirir em próxima visita.
A Nazareth terá perdido a primazia indiscutível no seu ramo, e senti uma certa decepção. Alguém me diz que há outra livraria na Rua 5 de Outubro. Vamos à antiga Rua da Selaria e no n.º 51 ao lado do restaurante PÁTEO no Beco da Espinhosa, a Fonte de Letras, com a sua «bandeira» a um canto da empena e um menu com gastronomia de inspiração literária. Entramos e encontramos resposta à nossa sede de qualidade. Faltará muita coisa, mas há consistência.


 










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Sobre a Nazareth, a Fonte de Letras e Évora sob o jugo francês, em 1808:

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